ENTRETENIMENTO

10 Filmes com Elencos 100% Negros que Marcaram a História


A representatividade negra na mídia nunca gerou tanta polêmica como hoje em dia, isso porquê a sociedade no Brasil (e no mundo) ainda não aprendeu a lidar com a presença negra em cenários dominados por brancos.

 

Em toda a nossa história a representatividade dos negros na publicidade e no cinema sempre esteve reduzida a pequenos papéis estereotipados com perfis depreciativos: o gângster, o ladrão, o escravo, a doméstica, o mordomo subserviente e por aí vai. Porém, casos como o do recente comercial da marca O Boticário, que gerou grande polêmica e discussões na internet por apresentar um elenco todo negro já existiam há mais de um século atrás.

 

Acima, personagens já conhecidos do público, Tia Jemima (Aunt Jemima) e Tio Ben (Uncle Ben’s Rice), marcas que simbolizam um olhar condescendente e estereotipado sobre a representação das pessoas negras na mídia e que jamais geraram qualquer tipo de polêmica ou discussão sobre o assunto (embora já modificadas pelos seus gestores para uma perspectiva mais “empoderada”).

 

Acima, a imagem do filme da campanha do Dia dos Pais da marca O Boticário: uma “evolução” da representatividade negra na mídia, apresentando uma família de classe média como outra qualquer comemorando o dia dos pais, mais nada. Não é necessário reforçar o tamanho da polêmica que o mesmo causou nas redes sociais angariando uma quantidade de 18 mil dislikes (até o momento) no Youtube.

 

1. A Fool and His Money (1912)

As primeiras peças publicitárias com pessoas negras datam da década de 1870, época quase tão antiga quanto a publicidade em si. No cinema, filmes com elencos 100% negros já existiam em 1912, pouco depois da primeira exibição de imagens em movimento da história (1805). O entitulado “A Fool and His Money” (“O Idiota e o seu Dinheiro”), provavelmente o primeiro filme da história a ter uma elenco totalmente negro conta a história de um pobre trabalhador que casa com uma mulher rica que lhe compra joias, roupas novas e carros até que ele perde tudo (até a mulher) em uma aposta.

 

2. The Realization of a Negro’s Ambition (1916)

Em 1916, o ator afro-americano Noble Johnson fundou a Lincoln Motion Picture Company, um passo importante para a  representatividade negra no cinema, já que se tratava de um estúdio operado inteiramente por cineastas negros com filmes que estrelavam somente atores negros. O problema é que esses filmes só podiam ser exibidos em salas de cinema “reservadas” para pessoas negras (colored only) o que dificultava qualquer repercussão que esses filmes pudessem ter. O primeiro deles foi “The Realization of a Negro’s Ambition” (“A Realização da Ambição de um Negro”) sobre um engenheiro que salva a vida de uma mulher branca (interpretada por uma atriz negra) e é premiado com uma oportunidade de obter sucesso no mundo dos negócios. O filme é, de certo modo, uma inversão das narrativas tradicionais da época que normalmente retratavam o personagem negro como violento junto a mulher branca vitimizada.

 

3. Aleluia (1929)

Foi somente em 1929 que um grande estúdio concordou em fazer um filme com elenco inteiramente negro. O filme entitulado Aleluia (Hallelujah) foi, porém, dirigido pelo famoso cineasta (branco) King Vidor. O mesmo tinha o interesse de apresentar o “homem negro do sul (dos EUA) como ele era”, o que deveria ser uma representação não estereotipada. Na época, o filme foi nomeado para o Oscar por melhor direção e recebido muito bem pela crítica norte-americana, porém, anos mais tarde, foi considerado ofensivo justamente por reforçar ainda mais estereótipos racistas (apostadores, caipiras e mulheres hipersexualizadas) e ser somente aclamado pelo simples fato de ter sido realizado. O filme conta a história de um trabalhador que se torna padre após cometer um assassinato.

 

4. O Rei Negro (1933)

O filme entitulado O Rei Negro (Harlem Big Shot) é uma sátira ao ativista jamaicano Marcus Garvey , que idealizou o movimento Volta para África que pregava o retorno da população negra para os países africanos e a desestabilização das colônias européias. Produzido pela Southland Pictures, uma produtora independente de Nova York, o filme ajudou a perpetuar falsas premissas e estereótipos absurdos. O personagem principal do filme se chama Charcoal Johnson (charcoal significa carvão em inglês), um homem que se aproveita da ignorância de afro-descendentes norte-americanos para se promover. Já é lamentável o simples fato deste filme sequer ter sido produzido, porém, felizmente, a produtora que criou esta aberração faliu e deixou de fazer filmes.

 

5. Lábios que Mentem (1940)

Enquanto homens e mulheres negras eram representados como mordomos, garçons, serventes, ladrões e outros estereótipos (isso quando não estavam dançando e cantando) nas grandes produções da primeira metade do século XX, um diretor independente tornava-se o grande nome de um gênero hoje conhecido como “filmes raciais” (race films): Oscar Micheoux, produtor e diretor negro. Seus filmes, embora de baixo custo e voltados somente para cinemas segregados da época são hoje considerados um grande avanço para a representatividade negra na mídia. Através de trabalhos, como um de seus últimos filmes, Lábios que Mentem (Lying Lips) as pessoas negras puderam contemplar seu universo e se identificar com personagens fora do estereótipo depreciativo e conservador das elites econômicas norte-americanas.

 

6. Carmen Jones (1954)

Devida a grande participação de afro-americanos na Segunda Guerra Mundial os filmes raciais foram se tornando cada vez mais escassos bem como os papéis dedicados a atores e atrizes negras, levando Hollywood a uma crise de reputação em meados da década de 50. Carmen Jones, de 54, foi o primeiro filme com elenco inteiramente negro distribuído por um grande estúdio, a 20th Century Fox. Com a direção do renomado cineasta Otto Preminger, o filme é uma adaptação da ópera Carmen Jones da Broadway (1942) para o cinema e conta a história da conturbada relação entre uma mulher sedutora, a Carmen, e o soldado norte-americano que a prende durante uma briga em seu local de trabalho. O filme tornou-se um marco para a representatividade negra no cinema sendo bastante aclamado pela crítica e vencendo o Globo de Ouro de Melhor Musical. Além disso, a atriz negra Dorothy Dandridge tornou-se a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme.

 

7. Ganga Zumba (1964)

Após a Segunda Guerra, o cinema mundial, esgotado pela crise dos grandes estúdios, viu sua válvula de escape no cinema independente que trouxe para o centro das discussões as temáticas sociais. Aqui no Brasil (só para sair do universo norte-americano para variar um pouco)  um dos marcos do Cinema Novo é também um dos poucos filmes brasileiros com elenco quase inteiramente negro (com exceção da atriz Tereza Rachel). O filme Ganga Zumba se inicia num engenho de cana-de-açúcar, no nordeste brasileiro no século XVI, quando negros fugiam dos senhores portugueses e fundavam aldeias, como o Quilombo de Palmares, de onde vem o protagonista da história, o próprio guerreiro Ganga Zumba.

 

8. The Wiz (1978)

O filme é basicamente uma adaptação do clássico “O Mágico de Oz” sendo estrelado por um elenco totalmente negro, dentre eles, nada mais nada menos do que Michael Jackson (ele faz o Espantalho). Apesar da direção do renomado Sidney Lumet e do elenco de primeira (MJ, Diana Ross), o filme foi um fracasso de bilheteria e crítica ressalvando-se alguns aspectos como a Trilha Sonora, Figurino e Cenografia, o que o tornou, sob esses aspectos, um filme ousado pela sua proposta e memorável.

 

9. Um Príncipe em Nova York (1988)

Um Príncipe em Nova York (Coming to America) é uma comédia romântica criada pelo ator Eddie Murphy que é também o protagonista do filme, bem, mais ou menos…Eddie e seu coadjuvante Arsenio Hall interpretam vários persongens diferentes do filme e é justamente aí que está a sua genialidade. O filme conta a história do príncipe africano Akeem que viaja para Nova York para conseguir uma esposa que o ame de verdade, não somente pelo seu status, e decide se disfarçar de um pobre estudante estrangeiro. Um Príncipe em Nova York foi um grande sucesso de bilheteria e crítica no mundo todo e até hoje é conhecido como uma das comédias mais engraçadas de seu tempo isso sem falar na influência que exerceu em vários filmes de comédia que se tornaram clássicos como O Professor Aloprado, Vovó Zona,  As Branquelas, dentre outros.

 

10. Os Donos da Rua (1992)

Não poderíamos concluir essa lista sem duas menções honrosas. A primeira é ao clássico Os Donos da Rua (Boyz n the Hood) que retrata a vida difícil e o cotidiano violento da periferia de Los Angeles. No filme, a vida na periferia, a violência e a segregação racial é vista através dos olhos de um jovem brilhantemente interpretado por Cuba Gooding Jr. O filme, que custou somente 6 milhões de dólares faturou mais de 50 milhões em bilheteria e foi indicado a dois Oscars, de melhor diretor (John Singleton) e roteiro original.

11. Beasts of No Nation (2015)

A segunda menção honrosa vai para a adaptação do romance nigeriano Beasts of no Nation, lançado globalmente pela Netflix em 2015. A história se passa em um país da África Ocidental não especificado e começa com a invasão da aldeia onde vive o personagem principal, Agu, por tropas rebeldes. Isso da início a uma jornada de sobrevivência do personagem em meio a uma terra devastada pela guerra. O filme foi indicado ao Leão de Ouro de Veneza e está dentre os mais bem avaliados até hoje no Netflix.

 

12. Pantera Negra (2018)

Pantera Negra (Black Panther) é o primeiro super-herói negro protagonista das histórias em quadrinhos; poucos heróis negros foram criados antes dele e nenhum com superpoderes. O filme de 2018 é a adaptação das histórias em quadrinhos do personagem produzido pela Marvel Studios e distribuído pela Walt Disney Studios Motion Pictures, sendo o décimo oitavo filme do Universo Cinematográfico Marvel, além de ser o primeiro título solo do personagem. O filme conta a história do herói T’Challa, príncipe da nação africana de Wakanda que perde o seu pai e viaja para os Estados Unidos, onde tem contato com os Vingadores. Com US$ 242,1 milhões nos quatro primeiros dias de exibição nos Estados Unidos e Canadá, Pantera Negra conquistou a terceira maior abertura de todos os tempos e é a maior arrecadação interna de um filme de super-herói até então, superando Mulher Maravilha, Homem-Aranha e Deadpool.

 

De escravos e trabalhadores subservientes à príncipes e super-heróis protagonistas de seu próprio destino, a representatividade das pessoas negras na mídia, tanto no cinema quanto na publicidade vêm claramente evoluindo conforme as discussões são colocadas e debatidas, infelizmente, ainda com boa resistência por parte de determinados grupos que insistem na teoria absurda do “racismo reverso” e hoje usam a internet como um amplificador do seu ódio e preconceito racial.

Espanta que esse tipo de mentalidade existe ainda hoje, mas se prestarmos atenção aos nossos próprios espaços de trabalho vamos constatar que a representatividade negra não é somente uma questão relativa ao universo do cinema e da publicidade mas de todos os mercados de trabalho. Quantos pessoas negras são gerentes e diretores na sua empresa? Representá-los nos discursos da marca é somente um dos passos a serem dados em direção a uma sociedade mais justa na qual todas as pessoas serão capazes de vê-las como normal.

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